quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Cidades Contemporâneas - O Nó da Mobilidade

Considerando que problemas mais sérios - educação, saúde, pobreza - não são, em essência, urbanos - mas sociais -, não hesito em dizer que o maior problema urbano atual é a mobilidade. Mesmo para cidades desenvolvidas e bem planejadas, garantir uma boa mobilidade a residentes e visitantes é um desafio. Para cidades menos desenvolvidas, a situação fica próxima do caos.

A fantástica engenharia de tráfego moderna

Enquanto algumas cidades pelo mundo têm desenvolvido projetos inspiradores, a realidade brasileira me parece desesperadora. Algumas cidades estão estagnadas, outras estão patinando há anos em projetos que não avançam, outras ainda estão andando para trás, investindo naquelas soluções que na verdade se transformam em problemas - como o resto do mundo já descobriu. Não é um privilégio das grandes cidades, com seu caos típico de áreas metropolitanas: cidades pequenas e médias só têm seus problemas reduzidos à medida em que as distâncias são menores, mas as soluções de transporte costumam ser terrivelmente pobres.

Parece que o transporte é tratado como uma questão meio particular, cada um que se vire como puder. Independente do que digam, é o que os governantes municipais demonstram em suas ações e prioridades. Mas não há dúvida de que essa é uma questão das mais estratégicas na vida de uma cidade. As condições de transporte e mobilidade podem definir a degradação ou recuperação de um bairro, a relação da comunidade com os espaços públicos, o acesso a oportunidades de trabalho, as alternativas de moradia e, se o interesse do poder público for apenas esse, o desempenho econômico local, tanto da construção civil como do comércio e serviços.

Mobilidade também é uma necessidade social básica. É a acessibilidade para todos - inclusive para aqueles com necessidades especiais, mas também para os demais. Pode recuperar comunidades marginalizadas por exemplo. Além do mais, a possibilidade de as pessoas circularem pela cidade, acessando serviços e espaços de lazer e interagindo entre si, multiplica o capital social, principal riqueza atual.

Pois bem, se há a necessidade social e potencial interesse econômico, resta o problema da capacidade do poder público, sempre lento e muito pouco criativo. Melhor não esperar por ele, até agora não deu certo. A própria sociedade precisa construir novas soluções para, depois, impôr ao poder público suas prioridades. Agora, nossa sociedade tem uma idéia clara do que precisa - ou, ao menos, em que direção ir? Creio que não.
Mobilidade baseada em carros: talvez com mais algumas ruas, viadutos...

O advento do automóvel gerou um modelo de urbanização e transporte que caracteriza bem o século 20. Do ponto de vista da mobilidade, o século 20 pode ser visto como a história da ascensão e apogeu do automóvel. Não duvido que tenha revolucionado o mundo e a vida das pessoas. Fantástico. Mas já estamos em outro século. E agora? Pois, se o automóvel ditou todo o processo de urbanização das grandes cidades no último século, não chega a ser injusto atribuir-lhe culpa pelos problemas atuais desse modelo urbano.

Para começo de conversa, o carro é excludente e limitante. Nem todos podem ter um. Nem todos querem, ou gostam. E mesmo que todos devessem, sim, ter e usar um carro, não haveria espaço para todo mundo. A abertura de avenidas, viadutos, túneis, a ponto de permitir tamanha demanda de espaço, degrada o espaço urbano e dificulta a circulação, desmotivando as pessoas a saírem de casa e interagirem em espaços públicos - o que compromete o próprio funcionamento da cidade e a geração do capital social.

Pedestres são criaturinhas que insistem em atrapalhar o trânsito - alguns pagam com a vida.

Ainda não entendemos a inviabilidade desse modelo. Continuamos reclamando do excesso de semáforos, da falta de viadutos, dos tais pedestres que insistem em sair à rua e atrapalhar o trânsito - e ao mesmo tempo compramos carros maiores, mais rápidos, mais agressivos. Exigimos mais espaço para estacionar, combustível mais barato, IPI reduzido - mas reclamamos da degradação do espaço público, da poluição e do tamanho dos congestionamentos. Seguimos amando o carro e odiando os efeitos de seu uso.

Carro é uma invenção genial, mas não foi feito para ser usado o tempo todo por todos para tudo - e ponto. Então é essencial que haja alternativas. Pela demanda de espaço típica do automóvel, é essencial desincentivá-lo para permitir espaço às alternativas. Para não forçar uma multiplicação do espaço consumido com veículos, tira-se a prioridade do veículo individual (ou quase individual) para dá-la aos outros. Essa é uma grande mudança de cultura, já que o automóvel está enraizado no estilo de vida.

Carros são um pouco egoístas com relação ao espaço - como fazer para caber todos?

Entender que é necessário mudar um modelo do século passado (e rever o papel do principal elemento desse modelo: o automóvel particular) para criar novas soluções é o primeiro passo. O contrário seria insistir nas mesmas estratégias, produzindo os mesmos resultados e problemas. Aí exige-se de cada um desapegar-se de sua idéia de conforto imediato (que muitas vezes fica só na idéia) para abraçar a possibilidade de soluções novas, melhores e para todos. Já há soluções em construção e dá para apostar em sua viabilidade. Mas vou deixar para continuar o assunto na próxima postagem.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Respeito à Individualidade - Essencial, Natural e Não Faz Mal.

Sejamos diretos: você é um reaça. Sim, reacionário, sendo bem francos. Reaça mesmo. Tem sérias dificuldades em respeitar a opinião e a liberdade alheias, e acredita sinceramente que não pode haver visão de mundo melhor do que a sua. Toma por missão impor seu sistema de crenças e valores, pois no fundo faz questão que todos sigam seu sistema para que não possa surgir um melhor - o que obrigaria você a reconhecer que suas crenças e valores não eram assim tão perfeitos.

Impôr sua vontade aos outros parece divertido, certo? Só para você...

Mas não se envergonhe tanto - um pouco sim, mas não tanto. Parece que você é maioria hoje em dia. Não lhe exime de culpa pelo que você e os seus fazem com o mundo, mas ao menos divide a culpa entre todos. É provável que sempre tenham sido maioria, mas muitos permaneciam meio adormecidos, sem muita vontade de se envolver. Foi quando seres de espírito livre e entusiastas do livre pensamento começaram a se articular pelo mundo que essa maioria adormecida acordou assustada. Fazendo jus a seu rótulo, levantam-se em reação a um sopro de mudança que recém começava a ganhar força.

Quanto mais se pensa a respeito, mais curioso parece esse comportamento de querer interferir na vida dos outros, ditar regras, proibir, obrigar. Há um aspecto religioso inegável aí, senão direto, ao menos uma herança recente do pensamento típico de nove entre dez religiões do mundo: a necessidade de promover seu estilo de vida sobre os outros, como uma obrigação moral de fazer o mundo funcionar como você acha que deve. Afinal, ao íntegro não se permite conviver com o ímpio.

Mas a religiosidade está em queda, a postura reaça não. Há outros ingredientes. Intolerância talvez: "O que é diferente não pode ser bom e, além disso, me ameaça". Ignorância com certeza: "não sei o que é isso e não quero saber, não entendo e fico com raiva de quem entende". E possivelmente algo de competição: "a visão do outro não pode ser melhor que a minha, e seu estilo de vida não pode ser melhor que o meu, então nem tente, espertinho". Não interessa se o outro não está competindo com ninguém. Para você reaça, o que importa é o seu ponto de vista. Mas não se ofenda se eu insinuo que você é ignorante ou intolerante, encare isso de frente e prove que estou errado.

Claro que você tem direito a seu ponto de vista tanto quanto qualquer outro, e claro que você pode ter razão em muitas coisas enquanto outros não têm. O problema é essa sua idéia de que o mundo é dual, e esse raciocínio linear de que o que não é bom só pode ser ruim, o que não está certo é errado. A realidade é um pouco mais complexa do que isso. Não há uma resposta certa em um problema que afete várias pessoas, já que as pessoas são diferentes e precisam de soluções diferentes, e uma solução coletiva, para ser válida, deve sofrer um processo de composição e, sempre que possível, consenso. Ou seja, ninguém está propriamente certo ou errado.

Livres de preconceitos, os indivíduos tendem a alcançar consenso em todos os seus problemas comuns, sem prejuízo de sua individualidade.


Não é tão difícil quanto você pensa. Na grande maioria dos problemas coletivos, as soluções convergem naturalmente para um consenso, uma solução composta que provavelmente será melhor que as idéias iniciais que a geraram. Problemas coletivos são essencialmente práticos e as soluções necessárias são essencialmente técnicas. Não havendo preconceitos e reservas morais, resta equacionar as diferentes necessidades e preferências envolvidas para que todas sejam atendidas na mesma medida. E se todos se dedicassem em tempo e energia para essas questões práticas, muitas delas seriam resolvidas em pouco tempo.

O caso é que você e os seus não conseguem se ater a questões práticas. Dispersam sua energia - e a dos outros - envolvendo-se em tudo aquilo que não lhes diz respeito: o que os outros fazem ou deixam de fazer, como relacionam-se entre si, o que fazem com seu corpo. Não, você não é obrigado a concordar com nada que os outros façam, mas talvez eles também não sejam obrigados a pedir sua concordância. Invadiram seu espaço de alguma maneira? Isso é um problema. Mas se ninguém invadiu seu espaço e mesmo assim você mete o bedelho, bem, então você é que está invadindo. Tão errado quanto, ou talvez pior. Nunca julgue ou condene por antecipação. As pessoas devem responder por seus atos, não por suas preferências. Não conclua que um determinado comportamento ou estilo de vida vai levar a algum tipo de falta ou transgressão, essa relação pode fazer sentido para você, mas não para os outros. Lembrando: as pessoas são diferentes.

Sabe o mais engraçado? No fundo você gostaria de se relacionar melhor com as pessoas, com sua comunidade, com o mundo, e poderia fazer isso facilmente, respeitando cada indivíduo em seu devido espaço e buscando sempre uma convivência harmônica e construtiva, tanto em idéias como em ações. Mas prefere oferecer aos outros seu preconceito e sua intolerância, e aí estraga tudo. Bem, na verdade não é engraçado.

Não sinta-se ofendido ou provocado a uma briga. Sinta-se intimado a uma reflexão saudável sobre a forma como se relaciona com o mundo e com as diferenças entre indivíduos. Sua idéia de mundo perfeito é absurda, pois não adianta ele ser bom só para você. Claro, deve servir também para você, o que significa que os outros devem respeitar seu espaço e suas preferências. Mas não espere que lhe dêem o exemplo, faça isso você também.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

O Importante é Competir - Ou Não

Certo, em tempos de olimpíada, um artigo oportunista, mas também oportuno - e vice-versa. E há que se considerar o fenômeno de que tais questões só são lembradas e discutidas no Brasil a cada quatro anos. Então, antes que elas simplesmente deixem de existir pelos próximos tempos, vamos a elas...
Medalha olímpica: aparentemente, símbolo e objetivo do bom investimento de um país em esporte.

Não, eu não cobro do Estado mais verbas para o esporte. E não, eu não me emociono com a história triste de nove em cada dez atletas brasileiros, que sofrem todas as agruras que a vida pode oferecer para, embuídos de um patriotismo a Galvão Bueno, levar o nome de nosso país à glória esportiva. Certo, entendo os valores do esporte e sua importância cultural para uma sociedade. Entendo o lado positivo de um evento como as Olimpíadas. E até entendo esse espírito de competição que se desenvolveu entre os países - só não concordo nem apóio.

Não sei desde quando existe a idéia de um quadro de medalhas, ranqueando os países entre si por número de medalhas, mas me parece algo inútil, infeliz e, quando se pensa a respeito, absurdo. Medalhas de ouro, prata ou bronze são meras convenções para classificar os primeiros colocados em uma competição, o que não significa que medalhas conquistadas no futebol, atletismo, levantamento de peso, tiro ao alvo e esgrima sejam de alguma forma equivalentes e passíveis de uma contabilidade. É como somar maçãs com bananas. Aliás, na grande maioria das modalidades - e principalmente naquelas tradicionalmente "olímpicas" - prevalece o talento e a preparação do indivíduo, e pouco importa onde esse indivíduo nasceu. Contabilizar uma vitória individual como simplesmente mais uma medalha no quadro de um país desmerece a conquista do atleta, e que pertence a ele antes de mais nada.
Competição entre países: alguns no amor e na vontade, outros superequipados e supercondicionados.
A nacionalização da competição esportiva pode ser entendida no interesse dos governos e regimes de fazer autopropaganda e de se promoverem de forma barata. Afinal, ninguém há de crer que vitórias esportivas efetivamente melhorem a vida de uma sociedade ou resolvam problemas estruturais de um país. Mas a estratégia funciona. As pessoas ficam felizes, se sentem mais patrióticas, realizadas. Mesmo em caso de derrota, ainda resta como recurso trabalhar o sentimento de esperança no futuro próximo, de preferência com mais trabalho e empenho para que o país atinja suas metas: títulos e medalhas.

Daí se explica esse raciocínio do investimento público, não na prática esportiva ou na sua promoção, mas na competição em si e em seus resultados - e na sua promoção. Não vejo nenhuma outra forma justificável de investimento público em esporte que não seja o acesso direto das pessoas - principalmente jovens e crianças e mais principalmente aqueles mais excluídos - à infraestrutura necessária para a prática esportiva. Produzir medalhistas olímpicos pode até promover a prática do esporte entre a sociedade, mas se não houver efetivo acesso aos equipamentos necessários, a promoção perde o sentido. Contudo, quando se fala em investimento público em esporte, se pensa justamente no contrário, no investimento direto em produção de títulos e resultados, independente do efeito prático que isso traga para a vida da sociedade - afinal, uma medalha em tiro de carabina é igual a uma medalha em natação ou atletismo, o que importa para o país é o número.

Analisando os resultados numéricos, acho curioso imaginar como a vida das pessoas no Cazaquistão, por exemplo, pode ter melhorado depois que o país resolveu investir pesado em uma equipe de levantamento de peso - ou sei lá que modalidade - e ganhou uma boa meia dúzia de medalhas. E se críassemos, no Brasil, o Jiu-jitsu olímpico, com umas dez categorias por peso, masculino e feminino? Vinte medalhas de ouro. O que mais mudaria no país além do patriotismo inflado? Pois bem, e se investíssemos mais nas modalidades já existentes, cujos membros tanto reclamam de falta de apoio, com patrocínios, bolsas e o que mais quiserem, o que mudaria no país? Apenas a idéia de que sim, o governo investe e cuida do esporte, e está fazendo sua parte.
Os bons resultados no esporte são importantes para muita gente em nossa sociedade.
E esse uso institucional do esporte vai exatamente contra a parte boa do esporte. O esporte de competição nem sequer é saudável - primeiro valor do esporte -, já que em nome do resultado se sacrificam até as articulações do corpo. Aliás, boa parte dos grandes patrocinadores oferece produtos que podem ser tudo, menos saudáveis. E boa parte das grandes potências olímpicas tem regimes que dificilmente praticam uma boa inclusão ou justiça social. Mas são altamente favorecidos pela promoção dos resultados.

Pior ainda é não poder falar mal desse assunto - tipo o que estou fazendo agora, mas eu sou um antipático -, já que pega muito mal ser contra eventos esportivos, ser contra nossos atletas, tão esforçados e carentes de apoio. Mais ainda, ser contra nosso país, representado basicamente por chuteiras, luvas de boxe e afins. Mas se toda essa institucionalização do esporte vai exatamente contra os valores do próprio esporte, ser contra isso é ser a favor do esporte, certo? E em tempos que se critica tanto os gastos públicos em estádios e arenas para a copa, por que defender o gasto público em medalhistas e resultados? Para mim, dá no mesmo.

Aliás, quando um atleta "sem apoio" vence representantes de potências esportivas, injetados de dinheiro e cercados de megaestruturas de preparação e condicionamento, antes de pensar que esse atleta vencedor mereceria apoio (seja de Estado, seja de patrocinadores), penso é que os outros que não deveriam ter. Afinal, esporte pelo esporte, não pelo resultado.

terça-feira, 17 de julho de 2012

O Triunfo dos Vagabundos II - O Ócio Feliz e Produtivo

No texto anterior, procurei esculhambar e achincalhar o conceito de trabalho como valor moral da nossa sociedade. Além de pouco simpático de minha parte, pode causar uma certa sensação de vazio. As gerações atuais, mais do que as anteriores, foram preparadas desde cedo para uma vida de trabalho abnegado e de definição existencial com base em uma ocupação ou carreira. A perspectiva de não ter que trabalhar - ou de trabalhar pouco - deixa a maioria das pessoas meio perdida e sem perspectivas. Alguém já disse que devíamos mesmo ser preparados para o ócio - e daí surgiriam naturalmente as vocações, idéias e projetos.

A contribuição da cigarra também conta, pois leva alegria à voluntarioso formiga.
 
Um erro grave, mas comum, que se comete quando o valor do trabalho é relativizado - sempre referindo-se ao conceito mais "tradicional" de trabalho - é acreditar que todos, se não trabalhassem, se tornariam uns inúteis, ou começariam a causar problemas. Afinal, mente vazia é playground do diabo, certo? Isso pode ser um tanto verdade hoje por causa da cultura atual, mas não é próprio da natureza humana. Talvez o próprio desajuste que muitos demonstrem quando em ócio seja devido à sensação inevitável de párias, de menos-que-cidadãos, fruto da cultura vigente. E a maior prova de que esse tipo de juízo é pura convenção é a diferença entre as classes de desocupados. Um rico que não trabalha é admirado e invejado como alguém que sabe viver a vida, mesmo que haja pouco mérito em sua fortuna - exemplos há de sobra. Já um "pobre" que não trabalha, pois vive bem com o pouco que tem (e, por esse aspecto, pode também ser considerado rico), é visto como um parasita social.

A verdade é que as mais significativas contribuições da sociedade costumam ser fruto do ócio. Claro que muitas invenções científicas e avanços tecnológicos devem-se à busca de seus autores por sucesso ou fortuna, mas as mais significativas dentre essas só poderiam ocorrer com uma boa dose de ócio. É aí que aflora a criatividade humana, jamais no stress e nas obrigações do trabalho cotidiano. E a criação que surge da vocação natural é sempre mais inspirada que aquela que surge da necessidade. Basta comparar a música de um verdadeiro artista e a música do artista comercial, feita sob medida para vender.

Outra verdade é que todo ser humano tem alguma vocação natural ou interesse genuíno. Não é necessário que seja algo tão essencial para o resto do mundo. O mundo tem bilhões de pessoas, a contribuição individual de cada um não precisa ser grande, o importante é que seja boa - ou seja, feita com boa vontade, talento e desapego. E somadas tantas diferentes contribuições, há de se encontrar de tudo. Desde que o ócio não seja visto como um raro momento de fuga de uma rotina enfadonha - como é hoje para a grande maioria -, o natural é que as pessoas queiram utilizá-lo para aquelas atividades que elas gostariam mas que normalmente não encontram tempo de fazer.

Sempre vi como verdadeiros heróis aquelas pessoas que, mesmo sujeitas a uma rotina de trabalho diária, encontram disposição em seu tempo livre para dedicar-se voluntariamente a atividades mais altruístas, em prol de um mundo melhor ou de uma sociedade mais justa, cada uma a sua maneira e conforme suas forças. Mas quantas outras pessoas sentem vontade de fazer algo assim, e certamente têm alguma habilidade a oferecer, e não encontram energia no pouco tempo livre que lhes resta? Quantas pessoas se dedicariam a idosos, crianças, pessoas com necessidades especiais, ou ainda ao meio ambiente, espaços públicos, atividades culturais, sempre voluntariamente, sem nenhum tipo de recompensa direta, e se sentiriam realizadas com isso? Aliás, quantas pessoas se sentem realizadas hoje com seus trabalhos?

É sempre uma possibilidade que alguns realmente queiram levar toda uma vida de puro ócio, talvez por falta de vocação, talvez por nunca ter despertado seus interesses. A esses, resta a questão do bom convívio social. Se, de alguma forma, representarem efetivamente um fardo para suas comunidades, serão cobrados por isso e se sentirão pressionados a ter uma atitude mais colaborativa. Mas, se estiverem em harmonia com a coletividade, que mal há? E se há bom convívio social, significa que ao menos nas pequenas ações e atitudes do dia a dia há alguma contribuição. O valor da contribuição de cada indivíduo para a coletividade só pode ser medido pela própria coletividade, e isso acontece naturalmente e segundo as características de cada sociedade.

Existe ainda aquela contribuição social intangível, impossível de ser medida, mas que deveria ser altamente valorizada em uma sociedade moderna, que é a contribuição para o nível geral de felicidade e bem estar. Isso pode ser feito através da arte, entretenimento, diversão, atividades culturais, esportivas, enfim, tudo aquilo que possa ser apreciado individualmente e compartilhado coletivamente.
Pense em tudo que você pode fazer hoje sem sair da cama.

Ou seja, se é verdade que estamos alcançando as condições técnicas para gerar abundância - e acredito que estamos -, deveríamos também já estar buscando essa sociedade mais feliz, solidária, produtiva e criativa. Longe de ser utopia ou devaneio, é uma conclusão lógica quando consideramos a realidade atual despidos de preconceitos, ou de valores éticos que já sobreviveram a seu próprio tempo e não fazem mais sentido prático algum.


terça-feira, 10 de julho de 2012

O Triunfo dos Vagabundos - Redefinindo o Conceito de Trabalho

Há alguns séculos que nossa sociedade ensina com estusiasmo o valor e a importância social do trabalho. Desde o sujo chão de fábrica da revolução industrial até o moderno executivo do mundo dos negócios, geração após geração cultivou a noção do trabalho como algo central para a existência humana e para o próprio sentido da vida. Por certo que isso foi de grande valia para a fantástica geração de riqueza e conhecimento que vemos hoje no mundo. Mas, com toda a mudança experimentada pela humanidade, produzida com todo esse trabalho, esse conceito permanece o mesmo? Qual é hoje o significado de Trabalho - e qual sua real importância para a sociedade?
Seu Madruga já dizia: o ruim é ter que trabalhar.

Não vou discorrer novamente sobre a tecnologia moderna e tudo o que ela pode nos proporcionar. Sou repetitivo mas não tanto. Mas fique claro o que acredito sobre a tecnologia: possuímos hoje todas as condições físicas e técnicas de automatizar quase tudo, com certeza os processos industriais e logísticos e provavelmente quase todos os procedimentos administrativos e burocráticos dos serviços públicos. Aliás, temos condições até de automatizar o próprio processo de automação - pode ser uma frase mal construída, mas é verdade. Sistemas que gerenciam sistemas, robôs que fabricam robôs, tudo isso já existe, e funciona.

A automação é uma questão central para o desenvolvimento econômico e social. Os ganhos de eficiência e qualidade tão necessários a uma sociedade sofisticada passam necessariamente pela redução da intervenção humana nos processos administrativos e produtivos. Sim, o ser humano é falho, limitado, sujeito a cansaço, frustrações, emoções, tudo isso nos torna mais interessantes e combater essas características nos tornaria menos humanos. Mas preferimos não ter falhas e defeitos em nossos produtos e serviços, certo? A automação pode resolver esse problema - se não totalmente hoje, é só questão de tempo.

Claro que alguns serviços importantes, como aqueles relacionados à saúde ou assistência, ainda precisarão da ação humana, mas mesmo nesses casos a tecnologia disponível reduz sensivelmente a necessidade de mão de obra - e melhora sensivelmente o resultado final. Se hoje não temos uma maior automação em nossos serviços, é porque combatemos o avanço da tecnologia sobre nossos empregos. Para que? Para não ficarmos desempregados. Mas para que precisamos estar empregados então?

Nossa sociedade se constituiu a partir do valor central do trabalho, e pensamos e organizamos nossas vidas em torno de nossos trabalhos, a ponto de não ser considerado um sujeito completo aquele que não trabalha - no conceito mais tradicional do termo. Mas a realidade em que esse valor se criou já não existe mais, na verdade praticamente se inverteu: a mão de obra humana não apenas é incapaz de trazer grande contribuição mas também prejudica o avanço tecnológico disponível. Considerada a necessidade de abrir espaço para a automação, para dar maior qualidade a produtos e serviços, pode-se quase dizer que abster-se de trabalhar já é em si uma contribuição à sociedade.

Sendo o trabalho humano desnecessário na prática, não faz sentido mantê-lo artificialmente apenas para dar sentido à existência - afinal, não há um sentido para ser dado. Claro que há muitos outros conceitos de trabalho, que podem ser usados e são muito mais significativos para o mundo atual do que o conceito tradicional. Um voluntário que ajuda doentes ou crianças carentes, um ativista ambiental ou simplesmente o cidadão comum que se mobiliza por causas coletivas fazem muito mais pelo mundo do que um trabalhador assalariado típico. A grande diferença está na motivação - e na necessidade.

Mas nem é o caso de questionar quantos se dedicariam a alguma causa ou finalidade que fizesse jus a sua existência. Apesar de que suspeita-se de que sim, muitas e muitas pessoas se dedicariam às mais nobres necessidades humanas por simples vocação pessoal. Voluntariado, como o nome sugere, deve ser algo expontâneo de cada um, a ser feito como e quando se aprouver, e também não teria sentido de outra forma. Então também não é isso que substitui a razão da existência.

A razão da existência seria provavelmente a simples existência em si, de preferência em harmonia e coexistência com seu meio e seus semelhantes, cada um cuidando de seu habitat e de sua comunidade, mas também de si mesmo e do seu próprio espírito. Tendo a automação para fazer por nós tudo aquilo que não nos agrada fazer expontaneamente, teríamos tempo de sobra para todo tipo de ação voluntária ou social, mas também para nos dedicar a tudo aquilo que nos agrada e dá graça à existência. Teríamos uma sociedade de músicos, artistas, escritores, boêmios, esportistas, pessoas criativas e felizes produzindo coisas bonitas e divertindo-se uns com os outros. Seria muito espírito de porco preferir o trabalho a isso, mesmo sabendo esse trabalho não ser lá muito necessário.

Ainda hoje, vemos certo preconceito em relação a pessoas que não têm um emprego ou empreendimento com fins econômicos. Há termos pejorativos para quem vive com pouco e trabalha pouco, e pouca admiração por aqueles que se dedicam a causas altruístas. Mas o pior ainda é reservado para aqueles que dedicam-se a curtir a vida, viver bem e fazer o que gostam: vagabundos. Não é inveja, é o valor ultrapassado do trabalho como finalidade da vida, tão enraizado que está. Pois então para que trabalhamos esses últimos séculos senão para gerar as condições sociais e econômicas que permitem nos dedicarmos aos prazeres da vida e celebrarmos a existência humana? Essas condições estão sendo rapidamente alcançadas, então podemos começar também a mudar nossos valores.

O espírito humano realmente livre - livre de valores ultrapassados e convenções sociais - é o mais criativo de todos, capaz de criar maravilhas e genialidades. Em uma sociedade de espíritos livres, podemos esperar grande riqueza cultural, artística e científica, mas também uma grande melhora no convívio social, na saúde mental e na realização pessoal. E, provavelmente, um aumento significativo no trabalho voluntário e no envolvimento em causas comuns - o que realmente muda o mundo para melhor hoje -, mas isso ainda não será o objetivo da vida, e sim uma consequência de uma sociedade mais saudável.
Se houvesse comida e abrigo para todos, certamente que a formiga se uniria à cigarra, para juntas celebrarem a alegria de viver

Até aqui, esqueci propositalmente a questão financeira. Claro, ainda que se concorde com tudo acima, resta a questão do sustento, da sobrevivência em uma sociedade voltada para o capital. Pois bem, essa é a questão que fica: a grande maioria trabalha hoje uma vida toda em empregos desagradáveis, de pouca contribuição social e ainda menos satisfação pessoal, não por valor ou virtude, mas por imposição de mercado, por uma convenção do sistema vigente. Entender isso já é um ótimo primeiro passo para começar a buscar a sociedade que gostaríamos de ter, e não a que achamos que precisa ser.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Tempo de Semear: O Exemplo dos Pequenos


Recentemente, vimos as grandes burocracias do mundo reunirem-se na Rio+20 e baterem suas cabeças por dias para produzir um inócuo documento que já nasce com 20 anos de atraso. E isso em uma época em que multiplicam-se os exemplos de ações espontâneas de pequenos grupos no mundo todo que, dentro das possibilidade de cada grupo ou comunidade, contribuem para melhorias efetivas nas condições sócio-ambientais dessas comunidades. O que as grandes burocracias mundiais não conseguem sequer colocar no papel, pequenos grupos auto-organizados vêm praticando com cada vez mais desenvoltura. O paradigma das organizações é que os grandes já não podem competir com os pequenos.

Outro exemplo bem recente e significativo vem da Europa, mais especificamente da Grécia em crise. Com sua economia nacional afundada e o cenário político descendo no vácuo, a Grécia não encontra em seus órgãos estatais, partidos ou corporações qualquer resposta útil para sair de sua sinuca. Ao mesmo tempo, surgem do interior de sua sociedade exemplos de pura criatividade e inteligência colaborativa. Como no caso da cidade de Volos, que instituiu uma moeda própria para reativar a economia local independente do Euro; ou o caso dos pequenos produtores rurais, que começaram a organizar-se em redes com seus consumidores, eliminando a intermediação e custos logísticos, reduzindo sensivelmente o valor final dos produtos.

Grandes instituições encontram-se emaranhadas em normas, regulamentos, políticas, as linhas de comunicação são restritas e os interesses são difusos. A burocracia intrínseca a uma instituição não é tão nociva a seu funcionamento quanto a degradação de seus interesses. À medida em que se institucionaliza, ela se distancia de seus objetivos mais diretos em favor de objetivos políticos, que são essencialmente desvios de finalidade em qualquer problema concreto.

É exatamente o caso da diplomacia internacional, seja na Rio+20 ou na ONU. Há muitos interesses a serem resguardados, outros que não devem ser melindrados, e uma simples carta de intenções ou coisa que o valha acaba sendo um exercício de palavras vazias. Bastante efetivo, não? Tendemos a criticar o Estado como a típica organização burocrática e ineficiente, mas grandes organizações em geral são assim quando tratam de interesses mais coletivos, de retorno difuso.

Já os pequenos grupos, geralmente horizontais e auto-organizados, são o que há de melhor em termos de organização ágil e efetiva. Utilizando-se das ferramentas de mídia e do amplo acesso a informação e conhecimento, rapidamente identificam problemas, necessidades, possíveis soluções e estratégias. Identificado o interesse comum, reúnem os recursos possíveis - essencialmente humanos, além do conhecimento aplicado e da energia colaborativa - e arregaçam as mangas. De um dia para o outro se realiza uma intervenção urbana, uma ação de recuperação ambiental ou um projeto de economia solidária. Ações reais, de resultados concretos, tão próximas quanto possível da realidade e das necessidades de cada local.

Em termos globais, cada ação local é quase nula, sim. Um mutirão de limpeza em uma praça não torna o mundo mais limpo. Um projeto de economia solidária em uma comunidade isolada não torna o mundo menos pobre. É o grão de areia no deserto, a gota d'água no incêndio. Mas as pequenas ações não valem por seu resultado imediato. Elas valem pelo poder de seu exemplo. E isso tem valor inestimável na sociedade atual, carente de bons exemplos, respostas, soluções concretas. Cada ação que se realiza semeia uma idéia, um valor, atitudes, demonstra às pessoas a capacidade que está nelas mesmas para tomar iniciativas e resolver problemas, prova que é possível não depender das burocracias globais para resolver as questões sociais e que a viabilidade de ações auto-organizadas vem do grau de adesão e comprometimento dos indivíduos.

Semear é algo poderoso. Considerando as facilidades contemporâneas de comunicação e interação social, o potencial de multiplicação é incalculável. As redes sociais não podem mudar o mundo, mas as ações que se realizam e se disseminam através delas podem, e já estão fazendo isso. Limpar uma praça ou o mundo todo é apenas uma questão de escala, de quantos indivíduos se envolvem na solução do problema. Multiplicando-se, grãos de areia se transformam em tempestade e gotas d'água se transformam em enxurrada. Palavras ao vento jamais atravessarão o jogo de cena da política global, mas os grãos de areia das pequenas ações percorrem o mundo e semeiam idéias que seguem se multiplicando - até mudarem o mundo.

terça-feira, 19 de junho de 2012

O Eleitor como Mercado e O Voto como Produto

As eleições desse ano têm tudo para ser um espetáculo. Por espetáculo, não entende-se necessariamente algo bom ou bonito. Talvez algo pensado para encher os olhos e, com algum esforço promocional, alguns corações. Nada que contribua para alguma melhora na política nacional ou na administração pública. Apenas a coroação da longa preparação dos marqueteiros profissionais para fazer exatamente aquilo que sabem: transformar a "festa da democracia" em uma mera ação de propaganda e marketing.

Não é de hoje que se empregam marqueteiros em campanhas eleitorais, aliás essa prática até já encheu. Mas virou uma ciência, e os candidatos parecem mais encantados do que nunca com ela. O negócio é segmentar o mercado - digo, o eleitor - e investir de forma proporcional ao peso de cada segmento, tentando estabelecer empatia com cada um. Em outras palavras, dizer o que cada um gosta de ouvir e prometer o que cada um gostaria de ter. E quando a gente acha que todo mundo já está tapado de nojo com a política e nem aguenta mais nada, eis que o povo nos surpreende e cai em toda essa conversa. Porque estão acostumados a ser tratados como segmento de mercado, e gostam disso sem nem saber.

A segmentação é livre. Vale gênero, faixa etária, etnia, religião, profissão - até mesmo a causa social de sua preferência, algo que deveria ser nobre demais para ser alvo de marketing eleitoral. Mas é tudo questão de criatividade. E é fácil. Um candidato que já está no poder, por exemplo, precisa de apenas dois neurônios para criar uma "Secretaria do Idoso", um "Gabinete de Políticas para o Jovem", a "Secretaria da Mulher" e por aí afora (e o candidato de oposição diz que ainda vai fazer muito mais: O "Escritório da Acessibilidade" e o "Gabinete da Bicicleta"). Não que algum desses grupos sociais tenha problemas que sejam resolvidos pela criação de burocracias estatais. Talvez alguns deles sequer tenham problemas que percebam como especificamente seus. Mas gera empatia, tipo, a sensação de que se lembram da gente e que se importam - pelo menos o suficiente para criar mais alguns cargos e tirar umas fotos.

Claro que os problemas que um governante eleito deveria tratar, prioritariamente, são aqueles que dizem respeito à coletividade e afetam a todos. Mas esses são mais difíceis e não geram empatia. Já grupos bem segmentados podem ser atendidos com marketing direcionado. Crie o "Dia do Profissional disso" ou o "Dia em Defesa daquilo", sai barato e não é nada difícil. Nada efetivo também, mas enfim, o que esperar de uma ação de marketing?

Na verdade, essa segmentação do mercado, digo, eleitorado, e das políticas públicas é algo de efeito hediondo, se gasta dinheiro, se rotula as pessoas em grupos sociais cada vez mais apartados, que vão competir entre si pelo dinheiro que se gasta e depois ainda se gasta mais dinheiro para fazer todo o marketing em cima do dinheiro que se gastou. E o produto final é a falta de recursos para tratar os reais problemas, e uma sociedade politicamente fragmentada, incapaz de analisar o quadro geral das coisas e de priorizar os interesses maiores acima dos menores.

Ora, uma sociedade - instrumentalizada por seu respectivo Estado - que seja capaz de priorizar e resolver os problemas mais essenciais, aqueles que acabam gerando os demais, produzirá em médio prazo melhorias e benefícios para todos os grupos sociais, sem precisar segmentá-los - talvez, até pelo contrário, aproximando-os em torno de objetivos comuns. Mas isso não é marketing, é administração pública de verdade, e o sistema político-partidário não é administração pública de verdade, é marketing.

Uma campanha eleitoral não deixa dúvidas de que marketing é o verdadeiro negócio e vocação dos políticos profissionais, e enquanto é mais fácil, barato e efetivo produzir esse marketing do que tratar problemas de verdade, é apenas nisso que essas pessoas concentram seu tempo e energia. Por incrível que pareça, ainda funciona. Já existe até a consciência da ineficiência do Estado e sua incapacidade, até falta de vontade, de tratar os grandes problemas. Mas o marketing ainda funciona. Por que? Porque gostamos de ser segmentados e rotulados, tratados como mercado, ouvir o que gostamos e sentirmo-nos lembrados. Gera empatia.