quinta-feira, 28 de junho de 2012

Tempo de Semear: O Exemplo dos Pequenos


Recentemente, vimos as grandes burocracias do mundo reunirem-se na Rio+20 e baterem suas cabeças por dias para produzir um inócuo documento que já nasce com 20 anos de atraso. E isso em uma época em que multiplicam-se os exemplos de ações espontâneas de pequenos grupos no mundo todo que, dentro das possibilidade de cada grupo ou comunidade, contribuem para melhorias efetivas nas condições sócio-ambientais dessas comunidades. O que as grandes burocracias mundiais não conseguem sequer colocar no papel, pequenos grupos auto-organizados vêm praticando com cada vez mais desenvoltura. O paradigma das organizações é que os grandes já não podem competir com os pequenos.

Outro exemplo bem recente e significativo vem da Europa, mais especificamente da Grécia em crise. Com sua economia nacional afundada e o cenário político descendo no vácuo, a Grécia não encontra em seus órgãos estatais, partidos ou corporações qualquer resposta útil para sair de sua sinuca. Ao mesmo tempo, surgem do interior de sua sociedade exemplos de pura criatividade e inteligência colaborativa. Como no caso da cidade de Volos, que instituiu uma moeda própria para reativar a economia local independente do Euro; ou o caso dos pequenos produtores rurais, que começaram a organizar-se em redes com seus consumidores, eliminando a intermediação e custos logísticos, reduzindo sensivelmente o valor final dos produtos.

Grandes instituições encontram-se emaranhadas em normas, regulamentos, políticas, as linhas de comunicação são restritas e os interesses são difusos. A burocracia intrínseca a uma instituição não é tão nociva a seu funcionamento quanto a degradação de seus interesses. À medida em que se institucionaliza, ela se distancia de seus objetivos mais diretos em favor de objetivos políticos, que são essencialmente desvios de finalidade em qualquer problema concreto.

É exatamente o caso da diplomacia internacional, seja na Rio+20 ou na ONU. Há muitos interesses a serem resguardados, outros que não devem ser melindrados, e uma simples carta de intenções ou coisa que o valha acaba sendo um exercício de palavras vazias. Bastante efetivo, não? Tendemos a criticar o Estado como a típica organização burocrática e ineficiente, mas grandes organizações em geral são assim quando tratam de interesses mais coletivos, de retorno difuso.

Já os pequenos grupos, geralmente horizontais e auto-organizados, são o que há de melhor em termos de organização ágil e efetiva. Utilizando-se das ferramentas de mídia e do amplo acesso a informação e conhecimento, rapidamente identificam problemas, necessidades, possíveis soluções e estratégias. Identificado o interesse comum, reúnem os recursos possíveis - essencialmente humanos, além do conhecimento aplicado e da energia colaborativa - e arregaçam as mangas. De um dia para o outro se realiza uma intervenção urbana, uma ação de recuperação ambiental ou um projeto de economia solidária. Ações reais, de resultados concretos, tão próximas quanto possível da realidade e das necessidades de cada local.

Em termos globais, cada ação local é quase nula, sim. Um mutirão de limpeza em uma praça não torna o mundo mais limpo. Um projeto de economia solidária em uma comunidade isolada não torna o mundo menos pobre. É o grão de areia no deserto, a gota d'água no incêndio. Mas as pequenas ações não valem por seu resultado imediato. Elas valem pelo poder de seu exemplo. E isso tem valor inestimável na sociedade atual, carente de bons exemplos, respostas, soluções concretas. Cada ação que se realiza semeia uma idéia, um valor, atitudes, demonstra às pessoas a capacidade que está nelas mesmas para tomar iniciativas e resolver problemas, prova que é possível não depender das burocracias globais para resolver as questões sociais e que a viabilidade de ações auto-organizadas vem do grau de adesão e comprometimento dos indivíduos.

Semear é algo poderoso. Considerando as facilidades contemporâneas de comunicação e interação social, o potencial de multiplicação é incalculável. As redes sociais não podem mudar o mundo, mas as ações que se realizam e se disseminam através delas podem, e já estão fazendo isso. Limpar uma praça ou o mundo todo é apenas uma questão de escala, de quantos indivíduos se envolvem na solução do problema. Multiplicando-se, grãos de areia se transformam em tempestade e gotas d'água se transformam em enxurrada. Palavras ao vento jamais atravessarão o jogo de cena da política global, mas os grãos de areia das pequenas ações percorrem o mundo e semeiam idéias que seguem se multiplicando - até mudarem o mundo.

terça-feira, 19 de junho de 2012

O Eleitor como Mercado e O Voto como Produto

As eleições desse ano têm tudo para ser um espetáculo. Por espetáculo, não entende-se necessariamente algo bom ou bonito. Talvez algo pensado para encher os olhos e, com algum esforço promocional, alguns corações. Nada que contribua para alguma melhora na política nacional ou na administração pública. Apenas a coroação da longa preparação dos marqueteiros profissionais para fazer exatamente aquilo que sabem: transformar a "festa da democracia" em uma mera ação de propaganda e marketing.

Não é de hoje que se empregam marqueteiros em campanhas eleitorais, aliás essa prática até já encheu. Mas virou uma ciência, e os candidatos parecem mais encantados do que nunca com ela. O negócio é segmentar o mercado - digo, o eleitor - e investir de forma proporcional ao peso de cada segmento, tentando estabelecer empatia com cada um. Em outras palavras, dizer o que cada um gosta de ouvir e prometer o que cada um gostaria de ter. E quando a gente acha que todo mundo já está tapado de nojo com a política e nem aguenta mais nada, eis que o povo nos surpreende e cai em toda essa conversa. Porque estão acostumados a ser tratados como segmento de mercado, e gostam disso sem nem saber.

A segmentação é livre. Vale gênero, faixa etária, etnia, religião, profissão - até mesmo a causa social de sua preferência, algo que deveria ser nobre demais para ser alvo de marketing eleitoral. Mas é tudo questão de criatividade. E é fácil. Um candidato que já está no poder, por exemplo, precisa de apenas dois neurônios para criar uma "Secretaria do Idoso", um "Gabinete de Políticas para o Jovem", a "Secretaria da Mulher" e por aí afora (e o candidato de oposição diz que ainda vai fazer muito mais: O "Escritório da Acessibilidade" e o "Gabinete da Bicicleta"). Não que algum desses grupos sociais tenha problemas que sejam resolvidos pela criação de burocracias estatais. Talvez alguns deles sequer tenham problemas que percebam como especificamente seus. Mas gera empatia, tipo, a sensação de que se lembram da gente e que se importam - pelo menos o suficiente para criar mais alguns cargos e tirar umas fotos.

Claro que os problemas que um governante eleito deveria tratar, prioritariamente, são aqueles que dizem respeito à coletividade e afetam a todos. Mas esses são mais difíceis e não geram empatia. Já grupos bem segmentados podem ser atendidos com marketing direcionado. Crie o "Dia do Profissional disso" ou o "Dia em Defesa daquilo", sai barato e não é nada difícil. Nada efetivo também, mas enfim, o que esperar de uma ação de marketing?

Na verdade, essa segmentação do mercado, digo, eleitorado, e das políticas públicas é algo de efeito hediondo, se gasta dinheiro, se rotula as pessoas em grupos sociais cada vez mais apartados, que vão competir entre si pelo dinheiro que se gasta e depois ainda se gasta mais dinheiro para fazer todo o marketing em cima do dinheiro que se gastou. E o produto final é a falta de recursos para tratar os reais problemas, e uma sociedade politicamente fragmentada, incapaz de analisar o quadro geral das coisas e de priorizar os interesses maiores acima dos menores.

Ora, uma sociedade - instrumentalizada por seu respectivo Estado - que seja capaz de priorizar e resolver os problemas mais essenciais, aqueles que acabam gerando os demais, produzirá em médio prazo melhorias e benefícios para todos os grupos sociais, sem precisar segmentá-los - talvez, até pelo contrário, aproximando-os em torno de objetivos comuns. Mas isso não é marketing, é administração pública de verdade, e o sistema político-partidário não é administração pública de verdade, é marketing.

Uma campanha eleitoral não deixa dúvidas de que marketing é o verdadeiro negócio e vocação dos políticos profissionais, e enquanto é mais fácil, barato e efetivo produzir esse marketing do que tratar problemas de verdade, é apenas nisso que essas pessoas concentram seu tempo e energia. Por incrível que pareça, ainda funciona. Já existe até a consciência da ineficiência do Estado e sua incapacidade, até falta de vontade, de tratar os grandes problemas. Mas o marketing ainda funciona. Por que? Porque gostamos de ser segmentados e rotulados, tratados como mercado, ouvir o que gostamos e sentirmo-nos lembrados. Gera empatia.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

O Negócio é Proibir

Recentemente, ganhou algum destaque a discussão sobre descriminalização, sobretudo do consumo de drogas. Enquanto para alguns o avanço (de um ponto de vista progressista) parece tímido demais para maiores debates, para muitos parece ainda uma questão especialmente polêmica essa de não criminalizar indivíduos por certos hábitos de consumo - não por possíveis consequências desse consumo ou algum prejuízo a terceiros, mas o mero consumo por si só. E me impressiona o aparente tamanho dessa parcela da população pró-criminalização. Em bom português, a favor da repressão, da proibição, do cerseamento da individualidade.



É certo que alguns hábitos individuais podem provocar ações prejudiciais a terceiros, sobretudo se alteram a consciência e o auto-controle. Se o indivíduo não sabe manter para si os efeitos de seus atos, deixa de ser uma questão individual para se tornar coletiva, e passível das devidas sanções sempre que causar danos a terceiros ou à coletividade. Até aí nenhuma dúvida. O interessante é centrar toda preocupação na questão individual e antecipar a condenação ao indivíduo por atos que ele poderia ter praticado, mesmo que, na verdade, não o tenha.

É uma prática discriminatória, pois os mais diversos hábitos e comportamentos são, de alguma forma, potencialmente ofensivos. Quem é mais perigoso, o motorista altamente estressado ou o consumidor moderado de álcool? A pessoa que é violenta ou a que usa maconha? O que deve ser proibido ou não são essencialmente convenções. Por regra, proíbe-se o que foge ao status quo e isso independe do potencial ofensivo das eventuais consequências.

Sendo, portanto, todos e cada um de nós passíveis de condenações e restrições, independente da individualidade de nossos atos, é interessante que a prática da proibição e da criminalização seduza uma maioria tão considerável. É uma prática extremamente ineficiente, em qualquer sentido, e isso precisa ser compreendido antes de mais nada. Cada um acaba por fazer o que quer, proibido ou não. Pegando o gancho do assunto em voga, consumo de drogas, quem quer consumir consome - a diferença é que em vez de adquirir no comércio adquire com o crime. E quem quer vender vende - mas em vez de tornar-se um comerciante torna-se um criminoso. A proibição não coíbe a prática, apenas a criminaliza.

Ainda nesse exemplo, é fantástico o volume de recursos empregados na repressão ao tráfico, humanos, financeiros e materiais. Sem falar na manutenção dos presídios e casas correcionais, superlotados principalmente graças à criminalização das drogas. Sendo o Estado um só, esses mesmos recursos deixam de ir para educação, saúde e inclusão social. Áreas que poderiam gerar algum resultado em longo prazo, ao contrário da ação policial, que enxuga o gelo. É mais econômico, eficiente e sustentável tratar a dependência como problema de saúde, tratando o tráfico como qualquer outro comércio, passível de alguma regulação e fiscalização quanto a abusos.

A criminalização das coisas gera emprego e renda, essa é a verdade. Muitos são os negócios que se criam e prosperam na chamada guerra às drogas. Como o consumo, de qualquer forma, acontece, e o gasto do Estado também, o dinheiro rola - muitas vezes em mãos pelas quais, de outra forma, não rolaria. Todo um conjunto de interesses se levanta a favor da manutenção da proibição e da repressão, e não são interesses limpos.

Contudo, esses interesses só se sustentam em toda a ineficiência que impõem à sociedade porque encontram suporte nessa mesma sociedade. A fonte desse mal é a curiosa tendência do ser humano em julgar o próximo, para depois reprovar e finalmente recriminar. A aceitação a restrições de liberdade parece ter duas explicações: a vaga noção de que quem é diferente é errado, e potencialmente perigoso ao estilo de vida "correto"; e a idéia de que essas restrições pesarão mais para os outros, pois estão errados, e são necessárias para proteger os "corretos". Mais curioso ainda é observar que essas restrições comprometem todos os estilos de vida, direta ou indiretamente.

É uma história velha e mofada, mas pelo jeito ainda atual. E, verdade seja dita, é a trilha do fascismo. Cada passo na direção da proibição e da repressão de Estado é um passo na direção de um Estado e de uma sociedade fascistas. Não é necessário dar muitos passos nesse caminho, cada passo já é ruim. E o sentido oposto não parece mal. Seria a coexistência, a aceitação das diferenças, a concentração de esforços e recursos na real solução ou tratamento dos problemas sociais - e sim, eventualmente na criminalização e combate daquilo que for realmente ofensivo.

A prática da coexistência requer partilha de espaço e de liberdade entre os diferentes indivíduos, geralmente restando menos espaço para cada um do que se gostaria, já que são muitos e muito diferentes esses indivíduos. Mas a aceitação de soluções repressivas também acaba restringindo esse espaço, não por redistribuí-lo mas por eliminá-lo. Péssima solução. Pior ainda por gerar um círculo vicioso: quanto mais as pessoas são perseguidas ou reprimidas, mais violentamente elas respondem à sociedade, dando mais motivo para a causa da repressão.

Por fim, às opiniões mais ferozes, fique claro que não se trata, aqui, de "defender bandido", mas de preservar o espaço e liberdade do outro na mesma medida que eu espero que se preserve o meu, e de não se ter tanta pressa em recriminar e perseguir qualquer coisa, guardando essa energia e recurso para os verdadeiros bandidos - e, principalmente, para reais soluções aos verdadeiros problemas sociais.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Engenharia de Tráfego Moderna: um case de caos urbano

Moro em Porto Alegre, uma cidadezinha no remoto sul do Brasil. Apesar de pequenina e provinciana, Porto Alegre tem a infelicidade de suportar sobre sua superfície 1,5 milhão de criaturinhas humanas, sendo que toda a área metropolitana apresenta aproximadamente o dobro desse singelo número. Aproximadamente mesmo, quase se esbarrando um no outro. É bastante gente se mexendo e fazendo barulho para todo lado. Uma verdadeira maravilha do Brasil moderno.



Em minha cidade, não reclamamos muito de falta de metrô, tramway, Brt... Afinal, somos brasileiros, e isso é tudo coisa de europeu fresco. Para nós, transporte público é coisa de pobre, é o bumba, chacoalhando o povo por duas horas entre o centro e o bairro. Agora, experimenta botar semáforo na rua para ver se não viramos feras dentro de nossos carros. E nem adianta, pois nossa cidadezinha não paga imposto para botar semáforo - aqui chamamos de sinaleira, que é mais pitoresco. Tem sinaleira embaixo de viaduto, em volta de rotatória, a cada dez metros em vias expressas, enfim, nossa criatividade permite colocarmos sinaleira em quase qualquer lugar. E nosso gênio ruim faz com que amaldiçoemos as mães de todos aqueles que as colocaram.

Pois bem. Atualmente, uma mega ação de intervenção urbana da prefeitura espalha semáforos em torno das principais rotatórias da cidade. Antes de mais nada, registre-se minha opinião técnica e bem balizada sobre o assunto: rotatórias com semáforos em volta parecem um forte sinal de que algo vai meio mal na engenharia de tráfego. Tipo, tecnicamente falando, uma verdadeira bicheira de engenharia de tráfego. Mas, sabe o pior? Era necessário.

Nessa pacata cidade, vale a lei do mais forte. Aqui, entenda-se que a massa de um carro multiplicada por sua velocidade lhe confere energia cinética. Quem detém a maior energia cinética tem a preferência em uma rotatória. E pode ser bem difícil decidir isso no calor do momento, cada um correndo para chegar mais rápido ao próximo congestionamento. Nossas rotatórias são um desafio à boa convivência de nossos calmos e bem equilibrados motoristas. E pior ainda para os pedestres e ciclistas - sim, pois, pasmem os habitantes de outras realidades, essas calamidades do trânsito costumam ficar em áreas de grande circulação de pedestres. Atravessar uma rotatória é arriscar a vida, já que pedestres e ciclistas têm uma energia cinética que nem merece respeito.

Foi necessário, e bem feito. Bem feito para os muitos motoristas que abusam de sua energia cinética nesses locais, e não demonstram quase nenhum respeito pela pele dos mais indefesos. Aproveitem a parada em frente aos semáforos para refletir sobre a vida.

Essa singela parábola do motorista portoalegrense, que desrespeita o pedestre e depois esmurra o volante quando tem que parar em um semáforo, representa bem a problemática de muitas das questões urbanas modernas: ação e reação, yin e yang, o que vai volta, e o que você faz é o que você recebe. Jogue lixo nos bueiros e sofra com os alagamentos; desrespeite as regras de convivência no trânsito e sofra com o trânsito precário; apóie o fechamento de bares e atrações de lazer em nome de seu sossego, depois sofra com a falta de opções de lazer na cidade.

Uma cidade é mesmo recheada de criaturinhas humanas dos mais diversos naipes e gênios - quase todos ruins. Aliás, não o fosse, não mereceria o nome de cidade. No máximo, vilarejo. Na verdade, essa diversidade é o que gera riqueza cultural e desenvolvimento humano a uma cidade - diferentes idéias, visões de mundo, experiências de vida, tudo convivendo junto em um único espaço e tal... Mas se houver a tal convivência. Na sociedade de consumo, aprendemos a valorizar nosso espaço, nossa casa, nosso carro, nosso ar, nosso silêncio... Mas em uma cidade grande os espaços não são tão individualizados assim. Nem tem como ser. Milhões de criaturinhas inquietas e barulhentas? Mude-se para o campo ou para a praia - uma das bem pequenas.

E pela própria lei de ação e reação, quanto mais se tenta fechar o espaço de uma tribo urbana, geralmente daquelas mais chatas e barulhentas, mais ela reage incomodando e fazendo barulho. Quanto mais os carros tomam espaço da cidade, mais os demais grupos tendem a invadir esse espaço. E quanto maior o confronto entre diferentes grupos de interesses, maior a regulação e restrição para todos.

Uma cidade grande deveria ser capaz de acomodar a todos os grupos se preservado o interesse comum. Uma boa rede de transporte público atendendo à grande maioria libera espaço suficiente para todos os demais, sejam motoristas, pedestres ou ciclistas. Uma boa quantidade de espaços de convívio e lazer permite opções a todas as tribos, sem disputa por espaço ou invasão das áreas de sossego. E assim vai, essa é a idéia. Mas tudo isso demanda que se pense no bem comum antes do particular. Yin e yang, o que vai volta. Aquilo que você faz é o que você recebe.

A engenharia de tráfego moderna é um ótimo exemplo do quanto é inviável tratar nossa falta de capacidade de convivência na marra. Enquanto cada um se preocupa com seu próprio espaço, tape-se a cidade com semáforos, viadutos, quebra-molas, barreiras, e assim fica ruim para todo mundo e não fica bom para ninguém. Não deixa de ser democrático. Claro que seria melhor enfrentar nosso gênio ruim e desenvolver o respeito mútuo e a prática da coexistência. Mas somos mesmo criaturinhas muito barulhentas.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Uma Economia Baseada em Recursos: Um Estudo da Vida Real de Culturas Isoladas (tradução PT-BR)

Traduzido por mim, com a maior fidelidade possível, a partir do original em inglês "A resource-based economy: A real life study of isolated cultures", publicado em 17 de março de 2012 por Mikael Wafin (se você, assim como eu, não confia em tradutores como eu, chega lá!).


"Eu estava assistindo a um documentário da BBC sobre o Pacífico Sul, no qual são mostradas diferentes ilhas isoladas nesse oceano e como elas tem sobrevivido com pouco ou nenhum contato com o mundo moderno. O programa apresentou a fascinante Ilha da Páscoa com suas famosas estátuas de pedra chamadas Moai."

"A Ilha da Páscoa era florescente em seus primeiros anos de colonização humana com largas florestas e grandes colônias de aves. Mas com o excessivo corte de árvores e caça de aves, muito da floresta frondosa e todos os pássaros nativos vieram à extinção. O corte excessivo da floresta foi forçado principalmente pela competição entre as tribos nativas quanto a qual delas iria criar a maior estátua de pedra, já que eles precisavam das árvores para transportar as estátuas pela ilha. Essa ignorância do conceito de conservar os recursos existentes resultou em um grave declínio da população e teve um impacto extremo na sobrevivência dos habitantes nativos e das gerações futuras. Hoje a Ilha da Páscoa ainda encontra-se despida das antigas e poderosas florestas."

"O documentário seguiu em frente para examinar outra ilha isolada do Pacífico Sul chamada Anuta. Anuta tem praticamente as mesmas condições da Ilha da Páscoa, isolada e vulnerável com seus recursos limitados. A diferença entre Anuta e Ilha da Páscoa é principalmente a atitude cultural. Enquanto as antigas culturas da Ilha da Páscoa tinham uma atitude competitiva uma com a outra e pouco respeito pelos recursos existentes, a população de Anuta é o oposto. Consideração pelos outros é a espinha dorsal do povo anutano. Eles têm uma filosofia chamada 'Aropa', que é um conceito de doar e compartilhar com os outros e é uma linha guia para como tratar um ao outro. Um exemplo dessa filosofia é que toda família na ilha recebe uma unidade de terra para cultivar comida para alimentar-se e também àqueles a sua volta. Eles estão bem cientes da escassez de recursos e da importância de cuidar um do outro. Eles sabem o que têm que fazer a fim de sobreviver e prosperar."

"É bastante óbvio qual atitude cultural é a mais sustentável. Os fatos e os exemplos da vida real estão aí. Competição e crescimento infinito dentro de um sistema finito não eram, não são e jamais serão sustentáveis. Se ao menos pudéssemos aprender com as experiências dessas ilhas isoladas, poderíamos mudar a inevitável destruição de nossa ecologia, que vem sendo preparada para nós pelo corrente sistema de mercado monetário."


Agora, alguns comentários...

Claro que o exemplo de uma pequena ilha isolada no oceano não pode ser tão diretamente aplicado ao mundo todo. A evidência gritante da limitação de recursos favorece o desenvolvimento de uma consciência adequada a essa realidade, e o estilo de vida que se desenvolve nesse cenário é obviamente muito mais simples. Mas o mundo como um todo também é limitado em seus recursos, e em algum momento eles atingem a exaustão. Recursos mais abundantes e mais diversificados até propiciam um estilo de vida mais sofisticado e complexo, mas se não houver um equilíbrio o esgotamento é questão de tempo. Ou seja, a diferença entre uma ilha e o mundo não é de princípio, mas de escala.

Além do mais, destaca-se a diferença entre as duas ilhas. Se os anutanos viram o óbvio da sua realidade, por que os habitantes da Ilha da Páscoa, capazes de fazer maravilhas, não viram essa mesma realidade antes que fosse tarde demais? E de que serviram suas grandes realizações depois que seu ambiente já encontrava-se devastado? Não estaria a humanidade como um todo nesse caminho? Em outra escala, claro.

O autor mostra-se bastante conciso em sua narrativa (afinal, em tempos de twitter e facebook, ninguém lê nada com muito mais de meia página), mas observa-se nas entrelinhas que compartilhamento e colaboração foram as formas encontradas de lidar com poucos recursos e evitar o desperdício. Cada família utiliza os recursos na dimensão de sua necessidade e compartilha com os demais na medida de sua possibilidade. Acumulação, tanto de produtos como dos meios de produção, seria inviável nessa sociedade, pois forçaria os menos favorecidos contra a conservação dos recursos naturais, comprometendo as gerações futuras.

Em tempo, não assisti ao documentário e não, nunca estive em Anuta ou Ilha da Páscoa. Mas mesmo que isso fosse uma fábula de ficção, ainda assim faria sentido, e é o que importa.

Fontes (conforme o original):

Feinberg, R (1988)
'Polynesian Seafaring and Navigation: Ocean Travel in Anutan Culture and Society.' Ohio: Kent State University Press.

A. Strathern, P. Steward, L.M. Carucci, L. Poyer, R. Feinberg, C. Macpherson (eds) (2002)
'Oceania: An Introduction to the Cultures and Identities of Pacific Islands.' NC Carolina Academic Press.

Feinberg, R (2004)
'Polynesian Life ways for the 21st Century. Prospect Heights,' IL: Waveland Press.

Paper discussing socio-political change on Anuta, Feinberg, R (1982)
(PDF document)
http://patriot.lib.byu.edu/PacificStudies/image/10910221792004_vol_5_no_...

http://en.wikipedia.org/wiki/Easter_Island

quinta-feira, 24 de maio de 2012

O Estado de Ineficiência e A Cultura do "Faça Você Mesmo"

Este texto mais ou menos segue um outro anterior, Sociedade da Ineficiência, onde tentei esmiuçar o "problema". Agora, tento analisar mais as soluções.


A ineficiência observada no mundo atual é não apenas proposital como também necessária aos sistemas econômicos vigentes. Dos problemas e carências, reais ou induzidos, advêm as oportunidades de negócio e geração de renda - assim como, em consequência, a concentração de poder político e econômico. Ou seja, os grandes detentores de poder são também os mantenedores dos grandes problemas mundiais. Vide a grave crise financeira tão alardeada, em contraste com a riqueza desmedida dos senhores das finanças. Ou, ainda, a miséria das guerras, em contraste com a prosperidade da indústria armamentista e das grandes empreiteiras que atuam na "reconstrução" de países.

Essas forças e interesses convergem e se materializam no Estado Moderno, dominado e pautado por lobbies, financiamentos de campanha, corporativismos e classismos. Disperso em questões menores, embromador em questões maiores e omisso dos grandes problemas. Enfim, ineficiente por vocação e destino. Alguns ainda acreditam na força do voto para melhorar a representação política e a atuação do Estado. Abençoados sejam em sua esperança, mas minha opinião já registrei anteriormente aqui no blog.

Algum Estado há de ser necessário, presume-se. E o "Estado mínimo" é aquele que menos faz e mais deixa fazer - o problema é quem e o que. Entes privados ou auto-organizados tendem a ser mais eficientes que o Estado, mas na consecução de seus próprios objetivos. Se esses entes são os mesmos que, indiretamente, já governam hoje os Estados, os resultados que já são ruins para a sociedade tendem a ser piores. O Estado só será mais eficiente para a sociedade se for diretamente controlado por essa sociedade - em outras palavras, se a sociedade tomar as rédeas e tornar Estado o conjunto de suas decisões e ações diretas, sem intermediação.

A prática do "Faça Você Mesmo" (do it yourself, no original em inglês) ainda é recente, mas se alastra rapidamente e vem demonstrando o quanto é possível essa ação direta da sociedade. Munidos das modernas ferramentas de comunicação, grupos independentes se formam no exato instante em que surge um problema a ser tratado. Em pouco tempo, trocam idéias e elaboram uma solução, partindo em seguida para sua execução. Dependendo do tamanho do problema, o grupo que se forma pode ser bem maior, e consegue até mesmo reunir recursos materiais e expertises técnicas que se façam necessárias. Se esses grupos encaminhassem seu problema, já com a proposta de solução, para uma prefeitura ou qualquer outro órgão público, em quanto tempo teriam uma resposta? E quanto tempo mais para iniciar a execução? E para concluir o trabalho, se chegar a ser concluído? Agindo de forma direta, um grupo bem organizado faz acontecer de um dia pro outro. E grupos que se reúnem em torno de objetivos claros e interesses genuínos costumam ser muito bem organizados.

O primeiro passo para fazer isso acontecer é entender que não se deve esperar pelo Estado. Aliás, a melhor forma de pressionar o Estado a fazer é fazer por ele, apresentando concorrência. A regra é: se você mesmo pode fazer aquilo que necessita, então faça. Claro, uma discussão prévia com vizinhos e concidadãos é de bom tom, e esse seria o segundo passo. Esse é fácil. As redes sociais tornaram bastante natural o contato direto das pessoas em grandes grupos ao mesmo tempo. Se todas se interessarem de alguma forma por um tema, se envolverão. A maioria dos temas que envolvem necessidades de uma comunidade ou vizinhança tendem a ter consenso rápido. Por exemplo, se quero limpar uma praça, fechar buracos de uma rua ou recuperar um calçamento, difícil alguém ser contra, certo?

Por fim, estando todos corresponsabilizados pelo problema e entendidos quanto à solução de consenso, vem a execução. Como um problema comum a muitos tende a interessar muitos, se todos se envolverem e cada um fizer sua parte, não fica pesado para ninguém. Mesmo que necessite de recursos, como material ou equipamentos, um grupo grande com bons contatos (novamente as redes sociais tornam isso fácil) corre atrás e levanta o que precisa a custos acessíveis.

Em se disseminando essa prática, e as pessoas desenvolvendo as habilidades do trabalho colaborativo e da discussão em rede, podemos pensar em realizações cada vez maiores e mais complexas. Não há impedimento técnico, é uma questão de escala. Em um grupo com milhares de pessoas, quantos médicos, engenheiros e empresários haverá? Com acesso cada vez mais fácil aos mais diversos recursos e tecnologias, o que seria inviável a esse grupo? Minha teoria é de que, conforme a escala de adesão das pessoas, dá para fazer qualquer coisa que um órgão público faria (melhor e muito, muito mais rápido e barato), substituindo aos poucos o Estado tradicional por uma sociedade auto-organizada em rede. Seria o futuro da administração pública - nesse caso, pública de verdade.

O Estado, tal como é hoje, há de ser mais um obstáculo do que um facilitador do processo. Lógica da concorrência ao invés da colaboração. Estados são instituições, e como tal lutarão de forma egoísta por sua sobrevivência. Mas, por sua própria lógica legalista, utilizam as armas erradas: muitas vezes, tentam prender, reprimir ou processar os cidadãos que arregaçam as mangas como se fossem vândalos ou desordeiros. Tática suicida, pois grupos cada vez maiores se envolvem nessa rede de colaboração e proatividade. Lutar contra significa ir contra a própria sociedade - e o que é um Estado que vai contra sua sociedade?

quinta-feira, 17 de maio de 2012

O Capital Colaborativo e A Economia do Terceiro Milênio

Para entender melhor as condições em que se torna possível a realidade abaixo descrita, recomendo dar um pulinho em A Terceira revolução industrial - mas depois volta aí!
Em uma sociedade em que o principal fator de produção é o conhecimento, a capacidade produtiva está dentro de cada indivíduo. Mas, pela lógica desse fator de produção, a geração de valor se dá apenas a partir da interação desses indivíduos. Ainda, diferentemente de qualquer outro fator já utilizado, o conhecimento não se consome com o uso, mas, pelo contrário, se multiplica a cada interação. Ou seja, o acesso ao principal fator de produção da atualidade não se dá pela concorrência, mas pela cooperação, e sua conservação não se dá pelo monopólio, mas pela disseminação. A economia que se estrutura sobre esse fator de produção, consequentemente, não é competitiva, mas colaborativa, e o que crianças de maternal entendem naturalmente ainda é um desafio para o raciocínio de boa parte do mundo.

As características inerentes ao fator conhecimento, da apropriação individual e da disseminação aberta e irrestrita - não é mais viável qualquer regulação efetiva sobre isso - alteram o foco dos processos produtivos, da grande organização para a rede informal de indivíduos, e alteram também, como consequência, a lógica que estabelece os objetivos desses processos. Enquanto organizações econômicas visam o lucro financeiro, e organizações outras visam acúmulo de capital político, e todas visam sua própria permanência no tempo, indivíduos têm as mais diversas motivações: ganho financeiro e capital político inclusive, mas também autodesenvolvimento, realização pessoal, espírito de comunidade, engajamento social e outros. Da mesma forma que cada indivíduo tem um diferente conjunto de conhecimentos, também tem diferentes necessidades e motivações.

A partir dessa constatação, se torna  interessante um ambiente de trocas constantes, em duas vias, conforme a máxima "de cada um, suas capacidades; para cada um, suas necessidades". Não chega a ser um escambo, pois a rede que se forma é plenamente conectada. Cada indivíduo conectado joga para dentro da rede sua contribuição (de cada um, suas capacidades) e retira de lá o que lhe interessa (para cada um, suas necessidades). Lembrando que nem lá nem cá ocorre qualquer subtração, mas multiplicação.

Quando o fator a ser considerado é o conhecimento, não há consumo, apenas produção, de modo que não há tendência de escassez, mas sim de abundância, o que torna sem efeito quaisquer práticas de reserva de mercado, concorrência ou monopólio. A formação de uma rede de acesso irrestrito baseada em colaboração é natural. Não havendo restrições, essa rede tende a crescer em nível global. Extrapolando, imaginemos todos os indivíduos do mundo conectados uns aos outros pelos recursos de telecomunicações, contribuindo com o que têm e aproveitando do que precisam. Organizações econômicas ou políticas perdem muito de sua função nesse cenário - senão toda. Os indivíduos tornam-se capazes de agruparem-se segundo cada um de seus interesses e necessidades, pelo tempo em que estes durarem, e em grupos maiores ou menores conforme a importância de cada assunto para o conjunto da sociedade.

Não é necessário forçar o indivíduo à colaboração (o que aliás nem faz sentido) ou mesmo ter muita fé na pré-disposição em colaborar. A própria interação já estabelece a colaboração, e à medida que o indivíduo busca suas necessidades na rede ele automaticamente colabora para o enriquecimento da rede. Lembremos que o fator aqui é o conhecimento, e até uma pergunta ou crítica contribui para seu crescimento, e o simples acesso, ainda que calado, contribui para lhe atribuir valor. De qualquer forma, o mais natural e esperado é que cada um, enquanto tenha liberdade irrestrita para atuar onde quiser e como puder, demonstre interesse em participar daquilo que acontece ao seu redor e modifica o seu ambiente.

Ao menos em um primeiro momento, haverá dificuldades com alguns perfis de colaboradores. Como bem sabe quem já trabalhou em ambientes de trabalho mais horizontais, há por exemplo o falso interessado e o incompetente motivado. O incompetente motivado quer muito participar, se envolver, chamar para si, mas simplesmente não tem as condições necessárias àquele trabalho. Difícil dar esse feedback para alguém tão motivado. Com acesso irrestrito ao conhecimento e acúmulo de experiência em trabalho colaborativo, isso deve ter cura. Já o falso interessado não quer realmente contribuir ou participar, mas apenas fazer parecer, dizer que faz e acontece, motivado por ego inflado talvez. Em uma rede irrestrita onde as pessoas se movimentam livremente conforme seus interesses e são avaliadas por seus pares pela sua interação efetiva, isso perde o sentido.

O capital colaborativo - o conhecimento que o indivíduo acumula ao mesmo tempo em que compartilha - e a organização do trabalho em rede libertam as pessoas de trabalhos enfadonhos, indesejados ou inadequados. Cada um se vê livre para encontrar aquilo que gosta e sabe fazer, tornando-se capaz de desenvolver todo o seu potencial e contribuir de forma efetiva para a sociedade. Uma economia que se estrutura sobre esse tipo de trabalho há de ser muito mais produtiva e eficiente, consequentemente também sustentável. Mais do que isso, permite a distribuição da riqueza gerada, que tende a ser abundante. Se o principal fator de produção é abundante, tudo o mais tende a ser.

No âmbito político e social, o caminho da eficiência é um pouco mais complexo. Aqui, as pessoas devem colaborar não somente na consecução das atividades necessárias, mas também nos objetivos propostos, que afinal são coletivos. Decisões políticas afetam a toda uma comunidade e, para ter a colaboração de todos, precisam atender aos anseios de todos - ou ao menos não ferir os anseios de ninguém. Melhor do que a simples democracia - ditadura da maioria sobre a minoria - é a construção do consenso, algo que só é possível em um ambiente colaborativo, e também é o mais indicado. A partir de diferentes soluções possíveis a uma questão, se constrói uma nova, maior e melhor que as anteriores, e que resolve a questão para todos os envolvidos.

A colaboração em larga escala, para fins sociais, políticos e econômicos, advém da prática e da experiência. Hoje pode parecer utópico que grandes grupos de pessoas se entendam e atinjam alguma harmonia ou consenso para as mais diversas questões, mas a estranheza que a idéia causa em muitos deve-se à pouca prática de nossa sociedade no assunto. À medida que as pessoas sintam-se envolvidas nos processos sócio-econômicos e corresponsáveis pelas alterações em seu ambiente, buscarão desenvolver as habilidades básicas de colaboração, cocriação e construção de consenso - no fundo, naturais a um ser social, mas que desaprendemos ao longo da vida e acabamos tendo que reaprender.